sexta-feira, 12 de agosto de 2011

A Arte do nosso tempo

Texto de José Roberto Sadek
Imagens selecionadas na web


Em todos os períodos históricos, tivemos produções simbólicas representativas. As primeiras de que temos registro vêm de 30.000 a.C. Eram pinturas em cavernas. Hoje, discute-se se aquilo era Arte. Naquele tempo, provavelmente, ninguém se preocupava com isso. Era uma produção visual carregada de valores simbólicos e fazia parte de rituais complexos e caros à sociedade da época.

Pintura Rupestre, Lascaux, França

Atualmente, convivemos com produções simbólicas de muitos tipos, que utilizam várias mídias. Há milhares de anos, como agora, essa produção é uma das formas de construir as bases da convivência grupal, de dar referências da história do grupo e de suas tecnologias, de mostrar as utopias, de criticar o presente e de entender a própria sociedade com suas características peculiares e enorme diversidade. É esse o papel que cabe à Arte Contemporânea, que, como o nome já diz, é a produção artística do nosso tempo.

Na época do Renascimento e nos séculos posteriores, a perspectiva trouxe para a Arte a possibilidade de representear espaços e pessoas com precisão matemática. A Arte assumia o papel de, entre outros, descrever a realidade.
Com o tempo, as obrigações da Arte Visual foram mudando devido a diversos fatores, como o desenvolvimento tecnológico, a evolução social e também em função do próprio conceito de Arte, que envolve mudar, reinventar sonhos, experimentar e ampliar os horizontes. Também é inerente ao conceito de Arte levar a pessoa a refletir, a pensar e a indagar sobre seu ambiente, sobre si e a respeito da própria Arte. À medida que esses fatores (tecnológico, social e artístico) se alteram, a Arte também muda. Tais variações não são, necessariamente, acompanhadas pelo grande público.

  Autor: Rafael Sanzio
Obra: Escola de Atenas
Data: 1506-1510 - Renascimento
Técnica: Afresco
Dimensões: 500 cm X 700 cm
Local: Palácio Apostólico, Vaticano

O realismo da pintura – a qualidade de copiar a realidade ou de idealizá-la com formas reconhecíveis – começou a ser desarticulado com o Impressionismo. A fotografia representava a realidade tão bem ou melhor que a perspectiva, e o Impressionismo mostrava as impressões sobre a realidade.


Autor: Jean-François Millet
Obra: As Respigadeiras
Data: 1857 - Realismo
Técnica: Óleo sobre tela
Dimensões: 359 cm X 598 cm
Local: Museu D´Orsay, Paris

O espectador não-especializado de hoje parece estar com sua compreensão aproximadamente na estética proposta pelo Impressionismo, segundo a qual as formas são reconhecíveis, apesar de não estarem iconicamente representadas. As exposições com longas filas e visitadas por milhares de pessoas são de artistas impressionistas, enquanto a Arte Contemporânea atrai poucos apreciadores. Diretores de museus e curadores relatam incansavelmente a dificuldade de apresentar esse tipo de Arte, ao passo que as mostras de design ou de Arte Acadêmica são bastante procuradas pelo público. A Arte do nosso próprio tempo não é compreendida. Paradoxalmente, a sociedade atual entende bem a Arte de tempos passados.

Autor: Pierre Augiste Renoir
Obra: Jovens Meninas ao Piano
Data: 1892 - Impressionismo
Técnica: Óleo sobre tela
Dimensões: 116 cm X 90 cm
Local: Museu D´Orsay, Paris


As explicações podem ser muitas, entretanto nenhuma é definitiva ou exclusiva. O fato é que depois do Impressionismo não foi mais necessário pintar de forma realista. Ele permitiu ao código visual sair da transparência e ganhar maior visibilidade. A pincelada, a estrutura da composição, a combinação e a justaposição de cores e linhas construtivas, antes escondidas do espectador, passaram a ser mostradas. A exposição desses códigos internos não impedia que as formas pintadas fossem reconhecidas. Os componentes da Arte deixam de ser transparentes, já que ninguém os via, e passam à opacidade, na qual podem ser percebidos, apresentando uma representação de realidade que ainda pode ser identificada. Reconhecer as formas é confortável, pois estabelece um termo de comparação visualmente simples, mas bem eficiente: “conheço a realidade e a reconheço na pintura; comparo a tela à imagem de realidade que tenho na memória”. Se as formas pintadas não estão muito iguais à realidade, o espectador as completa. Caso estejam muito diferentes, rejeita-as.

Com a passagem para o século XX e após várias décadas, a forma reconhecível deixa de ser tão importante para a produção artística. Os códigos da própria Arte ganham força como tema e como forma. Cubismo, Dadaísmo, Fauvismo, Suprematismo, Expressionismo e mais uma série quase interminável de “ismos” do século XX analisaram e desconfiguraram a representação realista. Ao mesmo tempo, levaram os códigos internos da pintura à grande exposição e a seu próprio questionamento. Formas que queriam ser figuras conviviam, lado a lado, com figuras que gostariam de ser apenas formas. Até os limites físicos da pintura foram experimentados e repensados, sendo mais tarde abolidos.
Autor: Henri Matisse
Obra: La Musique
Data: 1939 - Fauvismo
Técnica: Óleo sobre tela
Dimensões: 115,2 cm X 115,2 cm
Local: Albright-Knox Art Gallery, Buffalo, NY


Na Arte, vieram produções simbólicas de vários tipos, desde politicamente militantes a abstrações formais, as quais, naquele momento, foram chamadas de “alienadas”. Entre os abstratos, estavam os concretos, que usavam formas geométricas. Os demais apresentavam formas orgânicas e táteis. Pincéis eram substituídos por mãos, tubos de tintas e, até mesmo, pela força da gravidade, que ajudava as tintas a escorrerem pelas telas.

Autor: Piet Mondrian
Obra: Composição em Vermelho, Amarelo, Azul e Preto
Data: 1921 - Abstracionismo
Técnica: Óleo sobre tela
Local: Museu Nacional da Arte Moderna, Paris

A Educação, que deveria sistematizar e sintetizar a produção cultural, embrenha-se por caminhos isolados, fica oca e sem sentido. Temos uma Educação fora de sintonia com o mundo e a Cultura e, portanto, com a Arte. Paralelamente, novas mídias surgem rapidamente. A comunicação de massa avoluma-se e oferece conceitos e conteúdos ao público, traduzidos com facilidade e superficialidade, os quais, mesmo não sendo da necessidade do espectador, eram recebidos e assimilados por enorme contingente populacional, pela facilidade de comunicação e agressividade da oferta.

Essa maneira de comunicar facilita a compreensão e evita que o público precise pensar para entender. Para piorar, pensar e refletir tornam-se exercícios cada vez mais raros quando não há educação que faça sentido.

Na segunda metade do século XX, a Arte busca diferentes maneiras de experimentar e de ampliar os limites da própria expressão. O conjunto da produção simbólica é o que representa a sociedade, e não mais uma linguagem específica ou uma modalidade de expressão artística. Na área estritamente visual, muitas são as formas de expressão, desde histórias em quadrinhos e caricaturas até as tradicionais pinturas. Cada uma trabalhava com suas especificidades de público, de mídia e linguagem. Artistas, críticos e teóricos das Artes Plásticas valorizaram e escolheram o caminho da pesquisa, mais reflexivo, inquietante e incômodo para os tempos em que vivemos.

Autor: Evandro Carlos
Obra: Jardim
Data: 1986 - Contemporânea
Técnica: Mista sobre tela
Dimensões: 73 cm X 100 cm
Local: Reprodução fotográfica de autoria desconhecida

Falar em realismo não faz mais sentido, tampouco falar em pintura ou escultura. Os códigos da Arte, criados e desenvolvidos por séculos, são dissolvidos e abandonados por ela mesma. Começa a Arte Contemporânea. Não há mais “ismos”, há artistas; não existem mais pinturas ou gravuras, mas simplesmente Arte. A morte da pintura e a da Arte foram anunciadas várias vezes no século passado. Sobreviveram, justapostas e/ou embaralhadas a outras numerosas formas de expressão. Reconhecer o que é Arte é cada vez mais difícil e complicado. Há uma teoria para cada artista. Para conviver com a Arte Contemporânea, entretanto, é necessário conhecer vários assuntos. De taoísmo a trânsito, de física a moda, de fotografia a filosofia, de produtos industriais a sucatas, cada artista requer uma base de conhecimentos para ser entendido. É preciso saber sobre História da Arte; ter referências sociológicas; navegar pela Psicanálise. Defrontamo-nos com produtos que parecem simples à primeira leitura, mas que ficam complexos, completos e mais fascinantes quando nos aproximamos e descobrimos as referências necessárias à sua compreensão. Curiosamente, é como no Impressionismo: agrada no primeiro contato e aumenta de valor à medida que conhecemos mais e melhor suas referências e sua poética.

Acostumados com a comunicação de massa que impõe conteúdos e formas cada vez mais simples e mais fáceis de serem entendidos, o público perdeu o hábito da atenção mais detida e do mergulho um pouco mais profundo que a Arte requer. No entanto, a Arte do nosso tempo resguarda-se de leituras rápidas e precipitadas, e requer conhecimentos para revelar suas (e nossas) mensagens.
Autor: Nuno Ramos
Obra: Fruto Estranho
Data: 2010 - Contemporânea
Técnica: Mista
Local: Museu de Arte Moderna, Rio de Janeiro

Por isso, museus e institutos de Arte trabalham com mediadores que oferecem ao público chaves de intelecção e de aproximação com a Arte Contemporânea. Não é função deles explicar o que vemos ou definir o que seja Arte. Na verdade, eles religam-nos aos significados fundamentais e aos conteúdos necessários para melhor nos relacionarmos com ela. Eles fazem a mediação, mas a relação é – e deve ser – nossa. Não existe instituição de Arte séria que prescinda do setor educativo.

Se ficamos mais imediatistas, menos educados e mais distantes de nossa produção simbólica e, ao mesmo tempo, lidamos com um volume de informações inédito na história da humanidade, ainda temos a chance de nos educar para percebermos nossa Arte, nossos sonhos, nosso tempo.

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