terça-feira, 12 de julho de 2011

As vocações gêmeas da arte e do trabalho

por David Michael Phelps

Publicado em 30 de maio de 2006



O homem trabalhador é no fundo um artista. Muitas vezes o termo artista denota uma vocação de lazer, uma profissão esotérica para boêmios famintos, longe do mundo comercial da utilidade. Mas essa é uma visão um tanto curta que subtrai a essência tanto da arte quanto dos negócios. Na verdade, arte e negócios são subitens da categoria maior do empreendedorismo.

Para chegarmos a uma visão mais clara da arte, dos negócios e das semelhanças entre os dois, podemos recordar os escritos do papa João Paulo II, o grande. Um dos artistas favoritos do antigo pontífice, o poeta polaco Cyprian Norwid (1821-1883) escreveu que “a beleza é para dar entusiasmo ao trabalho, o trabalho para elevar”. João Paulo II fez essa citação não na Centesimus Annus (1991), nem na Sollicitudo Rei Socialis (1987) ou na Laborem Exercens (1981), suas encíclicas sociais, mas na Carta aos Artistas de 4 de abril de 1999. A arte (o serviço da beleza) e os negócios (o serviço do trabalho) são dois esforços de um movimento comum, duas formas de uma vocação comum. Essa vocação é a vocação para ver e para servir, “para nos entusiasmar” e para “nos elevar”. Os trabalhadores fazem isso ao nos dar bens e serviços, os artistas o fazem ao nos dar beleza.

Arte e trabalho são somente duas manifestações de um traço humano essencial: a criatividade. “Na criação artística, mais do que em qualquer outra atividade”, escreveu João Paulo II na Carta aos Artistas, “o homem revela-se como ‘imagem de Deus’, e realiza aquela tarefa, em primeiro lugar plasmando a ‘matéria’ estupenda da sua humanidade e depois exercendo um domínio criativo sobre o universo que o circunda” (§ 1). Esse relato da arte soa muito parecido com o do trabalho, que encontramos na Centesimus Annus:“a terra não dá os seus frutos, sem uma peculiar resposta do homem ao dom de Deus, isto é, sem o trabalho: é mediante o trabalho que o homem, usando da sua inteligência e liberdade, consegue dominá-la e estabelecer nela a sua digna” (§ 31).

A diferença aqui é que o trabalhador colhe o fruto da terra, ao passo que o artista colhe “a ‘matéria’ estupenda da sua humanidade”. O método é o mesmo: ao exercer sua liberdade com inteligência e criatividade, tanto os artistas quanto aos trabalhadores aproximam “o mundo visível como um vasto campo no qual a inventividade humana pode se afirmar”.

Essa idéia é semelhante a algo que Michelangelo (1475-1564) certa vez disse sobre sua obra-prima, Davi. Quando perguntado como criara essa escultura, o mestre respondeu que Davi sempre estivera na pedra, e que ele somente retirara tudo o que não estava nele. Tanto as lascas de mármore de Michelangelo quanto o “vasto campo” de João Paulo II são coisas em potencial. Na Centesimus Annus João Paulo II explica o empreendedor como alguém com visão para enxergar o potencial, como alguém com “a capacidade de conhecer a tempo as carências dos outros homens e as combinações dos fatores produtivos mais idôneos para as satisfazer” (§ 32). Um olhar arguto, uma mente criativa e uma iniciativa física fazem com que coisas potenciais se transformem em coisas atuais.

Mas, para que fim? Trabalho e arte devem ser expressões de criatividade, no entanto de quem e para que expressam algo? “Aqui tocamos num ponto essencial”, escreve João Paulo II para o artista.

Àqueles que percebem em si mesmos um tipo de centelha divina que é a vocação artística – como poeta, escritor, arquiteto, músico, ator e assim por diante – sentem ao mesmo tempo a obrigação de não desperdiçar esse talento, mas desenvolvê-lo, para colocá-lo ao serviço do próximo e da humanidade como um todo.

Descoberta, percepção, mente criativa – esses não são somente aspectos da mentalidade empreendedora, mas imperativos para servir. Porque “é através do livre dom de si que o homem verdadeiramente descobre a si mesmo”, os produtos desse aspecto do eu chamado criatividade deve ser orientada para as outras pessoas. A criatividade acha sua completude quando é ‘criatividade para’. Quando uma pessoa inventa – isso é, descobre – um novo bem, uma nova combinação de bens, a questão implícita é “bom para quê?” Bom para mim é uma resposta possível, bom para os outros é outra resposta. E desejar o bem para os outros é o fundamento do amor.

Se a arte e o trabalho são vocações gêmeas, isso quer dizer que os artistas e os homens de negócios também são gêmeos. Talvez ambos sejam empreendedores lidando com materiais diferentes. Muitas vezes os artistas têm algum pequeno problema para saber que têm uma vocação criativa (daí o estereótipo do artista morrendo de fome), e, no entanto, na maioria das vezes não se vêem como servos. Ao contrário, os homens de negócios nem sempre se vêem como detentores de uma vocação criativa, todavia, sabem que devem servir ao cliente para sobreviver no mercado. O artista é um trabalhador; o trabalhador é um artista. Cada um pode aprender com o outro, e, talvez encontrar incentivos para ver que a vocação de criar e a de servir são de muitos modos, a mesma vocação.

Tradução de Márcia Xavier de Brito

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